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sábado, 5 de maio de 2012

Desilusão


Como um quadro macabro as pessoas olhavam-me horrorizadas. Seus rostos me assustavam, eu fui exatamente como eles. Tinha vida, trabalhava, amava minha mulher e meus filhos... Então como? Como fui parar ali?
Não lembro como começou. Mas agora estavam todos ali, minha mulher ainda me encarando com o mais puro medo ajoelhada abraçando nossa pequena menina que chorava aflita. As pessoas me olhavam com um horror e eu... Eu me sentia um monstro. Mesclava meu olhar castanho para minhas mãos calejadas de trabalho e para as pessoas à nossa volta. Às vezes eu escutava vozes que diziam ‘que horror!’ ou ‘chamem a polícia!’. Minhas mãos... Elas ainda estavam calejada e com farpas da madeira que era o cabo... O cabo do machado.
__ Harry, por que você...? – Minha mulher perguntava ainda em choque abraçando com força nossa Kate para que ela não visse ou ouvisse tudo ao redor.
__ E-eu não... – Eu queria falar explicar, queria que ela parasse de me olhar. Aqueles olhos azuis estavam me matando – Rebecca eu não quis... – Fiquei de pé pra explicar.
As pessoas à nossa volta deram um pequeno grito assustadas, eu tentei me aproximar, mas ouvi os burburinhos ‘ele vai tentar matar ela!’.
__ Calem a boca! – Gritei – Ela é minha mulher, eu jamais a mataria! – Falei gritando contra todos – Eu amo ela! – Falei gesticulando.
Ouvi então o grito de Rebecca que me fez paralisar até o dia em que fui condenado culpado no tribunal.
Minha doce esposa... A mulher que conheci no colegial, que levou-me ao campo para conhecer a família simples dela, que eu trouxe para dentro de casa, apresentando-a aos meus pais de elite, que enfrentamos o preconceito social e que fizemos faculdade juntos na mesma universidade. Ela era fotógrafa e eu médico. Juntamo-nos e na minha formatura a levei para a praia onde tivemos nossa primeira noite juntos. Casamos uns dois meses depois quando descobrimos que ela estava grávida. Tivemos nossa Kate e eu abri um escritório médico. Passamos por tempos difíceis, mas conseguimos nos superar. Lembro que uma vez, num momento de dificuldade acordei de madrugada e a vi na janela. Ela estava linda com aqueles longos cabelos loiros refletindo o brilho da lua. Linda...
__ Querida, tudo bem? – Perguntei ainda com sono, me levantando lentamente para ir até ela.
Ela virou-se para mim, pareceu assustada, então veio em minha direção me impedindo de levantar.
__ Sim, estou, meu bem... Só estava pensando... – Ela deu um sorriso fraco. A luz da lua iluminava bem o quarto, ainda mais ela, tão branca.
__ No que, meu anjo? – A puxei para perto de mim a envolvendo pela cintura.
__ As coisas andam difíceis... – Ela começou, parecia hesitante.
__ E daí? Vamos melhorar! – Falei beijando o rosto dela tentando acalmá-la.
__ Amor eu só queria que soubesse que... – Ela começou.
__ Que...? – Incentivei ante a pausa.
__ Que não importa o que aconteça, eu não vou abandonar você, ta? – Ela pareceu subitamente aliviada, em seguida puxou meu rosto para um beijo.
__ Nunca? – Perguntei entre os beijos rindo de leve.
__ Nunca... – Ela se deitou sobre mim.
Quando penso nisso... Ela nunca ia me abandonar... Então por que ela disse aquilo...?
“Também amava seu pai! Se for esse amor, eu não quero! Seu monstro!! F-fica longe de mim... E da Kate!!”

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