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sábado, 17 de dezembro de 2011

Máscaras II

Máscaras

– II –


Doces máscaras enfeitam o mundo como se fosse um eterno carnaval. Não acredito em muitas coisas e nem espero algo mais depois do ‘momento’.
Eu deveria acreditar, acho... Mas não. Não acredito. Amor? Cruzes, isso existe? Não boto fé em quase nada... Quase nada...
Gostaria que tudo acabasse e o céu caísse. Contanto que eu estivesse dormindo. Sonhando com meus pesadelos de sempre. E quando o sonho acabasse o mundo teria ido junto. Daí, talvez, com tudo acabado, tudo o que eu sonharia seria bom. Já que seriam lembranças de algo que nunca mais veria.
Uma pena de um pombo que alçou vôo. Uma pedra que um garoto jogou contra um portão. As varias moedas que existem no mundo. Dezenas de pessoas que conheço. Os sorrisos que tanto me alegraram a cada reencontro. As páginas das revistas que me distraem. As notas ruins nos históricos podres. A carreira que nunca terei, já que não há futuro... Não há nem um ‘eu’.
É...
Tudo seria um sonho bom. Pesadelos seriam miragens... Perseguições, estupros, assaltos, mortes de pessoas queridas... As próprias mortes. Fim.
Mas não há nada disso.
Há apenas uma nova máscara que exibe cada olhar em cada início de dia.
A pessoa no espelho, a primeira pessoa a quem você olha no dia. O primeiro cumprimento. Tudo uma grande mentira. Não há sorrisos perfeitos, olhares sinceros ou metas nobres. Tudo é uma grande mentira. Tudo é um grande monte de falsidade, interesses... Orgulho tolo e invejoso.
Mentiras.
Fazem da verdade uma pepita pura e lapidada.
O próprio ouro, puro e lapidado, é feio. Fraco. Mas vale tanto mais do que um perfeito anel de ouro branco. Enfeitado, talhado com tribais atraentes, conquistando mulheres e produzindo mais sorrisos falsos. A felicidade deveria residir no “Case-se comigo”, não no anel caríssimo. A felicidade no pedido só reside em mentes voltadas ao cinema – mentiras que existem para entreter o público e/ou estimular novas mentiras.
É tudo tão falso. Tão patético. Mentira em cima de mentira.
Não acredito em nada.
Sem ponto de exclamação ou reticências.
Não há verdades. Só mentiras. Uma criatividade inigualável. Ganha o mais mentiroso, ganha a grande idéia, ganha quem tiver mais ganância... Não mais ambição.
Tenho nojo de tudo isso. Tudo.
Você passa a sua infância vendo e aprendendo sobre o grande teatro que é o mundo. Na adolescência, você aprende a moldar uma máscara que chamam de ‘profissional’. Assim, quando você for adulto, você poderá usar essa máscara pra esconder seu caráter.
E adivinhe: Seu caráter é podre. Por isso você precisa da máscara.
Por que é podre?
Por que quando você é uma criança, você tem apenas uma mente aberta. Aberta para capturar, da forma mais rápida que conseguir, a idéia que o grande teatro – mundo, se preferir – quer passar. Na adolescência, você é um completo perdido. Você não é ninguém. Aqueles que usam máscara têm a função de te ensinar a moldar sua máscara. Conviver com um ator do grande teatro, te ensina a manter a mente aberta para capturar a essência do ator. Automaticamente você aprende a ser essa essência, afinal você não é ninguém. Capturando essa essência, você já tem a malandragem – instrumento essencial ao exímio mentiroso (profissional, se preferir) – para usar a máscara que vai criando.
Então agora você é um adulto – nesse caso, também profissional – completo e moderno.
É tudo o que queriam que você fosse desde que te exibiram o grande teatro na primeira vez.
Profissional. Mentiroso. Ator. Malandro.
O incrível mascarado.
Melhor que ontem e rezando pra ser alguém amanhã. Hoje, você é o fruto de um atual derrotado – mas ontem, ‘ele’ foi o profissional ator malandro. Só mais um mentiroso. – O que tem de tão especial amanhã? Outra máscara para vestir.
Outra função do profissional, além de instruir ex-crianças de mentes abertas a construir suas máscaras, é fazer máscaras melhores.
Sorria seu mais sincero sorriso. Mas não se esqueça de fazer isso logo após seu pai ter morrido de AIDS e tê-lo visto apodrecer VIVO no hospital. Chore copiosamente após ver uma cidade explodir por conta de uma bomba atômica minutos depois de ouvir seu afeto te pedir em namoro no restaurante mais romântico de Paris. Não faça porra nenhuma assim que ouvir que acharam a cura d câncer cerebral após voltar do enterro de sua mãe e saber que sua filha também tem. Mas fique tão eufórico quanto uma criança débil mental após ver uma aranha ficar pendurada por um fio que ela mesma fez, um metro e meio abaixo do teto, entre você e a TV na casa daquela tia que você só soube da existência hoje de manhã.
Exímias mentiras.
Ganhei na loteria. Fui pedida em namoro. Eu realmente amo você. Adoro quando você diz meu nome. Nossa como eu odeio chocolate. Não bebo refrigerante. Amo salada. Eu gosto de cuidar da jaula dos animais. Hoje foi o melhor dia da minha vida.
Vai ficar tudo bem...
Exímias mentiras.
Sabe, devia haver uma música disso tudo! É! Mas não há.
Também não há uma animação sincera nas exclamações acima. Mas há mentira. Há a maestria de uma máscara. E eu sou apenas a aprendiz disso. Eu sou só a ex-criança. Estou construindo minha máscara.
E a odeio antes de costurá-la em meu rosto.
Todos os dias a uso. E está pertíssimo o momento em que pegarei uma agulha e sangrarei lágrimas ao costurá-la permanentemente no meu rosto. E isso logo após arrancar o meu rosto! Não interessa quantas exclamações eu use: Não há animação.
Quer verdades? Ouça clássicos que não têm letra. Veja Van Gogh ou Victor Vassaréli. Procure as imagens na aurora boreal. Ou a ilógica na matemática. A razão no empirismo, ou o empirismo na razão.
É tudo uma grande mentira. E se foi mentirosos que tocaram, fizeram ou disseram isso, são mais mentiras. Uma pilha delas.
A diferença é que, ao menos, eles costuraram a máscara por cima do rosto. Não perderam nem passaram por cima do próprio caráter para usá-las. Mas obviamente, a sociedade os reprimiu. Só por dizerem a verdade.
A mentira é um grande pecado.
A sociedade se move sob mentiras.
Logo...



Uma máscara

Futura profissional provida de máscara
E
Falta de caráter.

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