Eu as detesto.
Todas me enjoam!
Boas, ruins, acolhedoras ou devastadoras... Foda-se. Eu as odeio.
Alegres, tristes, dramáticas, raivosas, sanguinárias, horrendas, sorridentes, felizes, pacíficas... Em geral e sem exceção, mentirosas.
Posso falar delas o tempo todo, mas não posso deixar de citar que as uso. Não é por opção. Usar máscara é uma obrigação. A sociedade impõe isso. Sim, como não? “Como você está? – alguém pergunta num sorriso e educação automáticos” “Bem, e você? – Outro responde com o mesmo sorriso e educação automáticos, isso quando ainda diz o obrigado, como não foi o caso. É bom lembrar que este senhor que está ‘bem’, perdeu a mulher para o amigo enquanto hipotecava a casa por dívidas de jogos e da própria casa, tem cirrose e inicio de câncer pulmonar dado o cigarro, a ex-mulher é estéril e está ficando calvo e impotente, por que o barril de cachaça que ainda chama de barriga e os fios brancos da velhice chegaram mais cedo”.
Amaldiçoada sejam as máscaras, que são o adorno mais comum na sociedade.
Amaldiçoada sejam as pessoas, que aceitam isso em silêncio e acham isso prático, rápido, proporcional à geração “fast food”.
Ora, e se a conversa muda de rumo?
“Como você está? – Alguém pergunta naquele mesmo sorriso e educação com vida própria que surgem assim, instantaneamente.” “Sabe... Eu gostaria de dizer que estou bem, mas não estou. – O outro fala francamente, com ar cansado e abaixando a cabeça humilhado pelos problemas que a vida, somado as suas escolhas ruins, lhe impôs.” “É mesmo? O que foi que houve? – Alguém se interessa rapidamente e estreita os olhos inclinando a cabeça buscando atenção ao problema do colega.” “Bem... É que, como pode ver, estou velho... Fui demitido essa semana. Cheguei mais cedo em casa e peguei minha mulher com meu amigo. Frustrado, fui jogar e beber um pouco, mas perdi tudo. Com isso, não agüentei... Só sei que acordei no hospital. O doutor disse que estou com câncer por culpa do cigarro e cirrose por conta da cachaça... Voltei pra casa à base de aparelhos pra ver minha ex-mulher jogar na minha cara que iam hipotecar a casa. Depois disso foi embora. Após tomar uma lata de cerveja fui me divertir sozinho com um filme pornô... Estou ficando realmente velho... Sabe... Não sei o que fazer... Estou perdido e hoje de manhã mandaram o pedido de mudança...” “Ora, é mesmo? Por que não jantamos juntos e você me fala a respeito, hm? Agora tenho uma reunião importante com os sócios da empresa em que trabalho. Está com cara de que vou ser o novo sócio deles! Oh, não vai dar... Terá que ser no almoço, pode ser? Hoje jantarei com minha esposa... E nossa pequena Katy... Sabe que ela está grávida de novo? Estou feliz e realizado, mas... Boa sorte para você, cara... Estou torcendo por você.”.
Não é engraçado como as coisas são?
Ninguém é sincero. O cara estava feliz. Foda-se que o outro está mal, contanto que a merda de vida dele não seja contagiosa, está tudo bem, ele ainda terá a mulher, a pequena filha e a criança que ainda não nasceu. Terá o tal cargo de sócio e um jantar apetitoso à noite. O amigo dele está mal, ele pode até se incomodar com isso, mas... Mesmo que ele se incomode, a mulher o distrairá quando ele pensar nisso e comentar com ela na cama, e logo em seguida transarão muito e acordarão com sorrisos dispostos cumprimentando-se com um suave beijo sem se lembrar que o outro existe. Claro, isso se apenas lembrar-se de comentar com a mulher do amigo. Caso contrário, pularão para a troca de calor mútua.
E o outro?
Bem, procurará emprego, mas sua aparência que lhe dá mais idade que tem não ajudará. Ao voltar pra casa, derrotado, seus móveis estarão fora e a mulher estará com o outro querendo apenas as coisas mais caras. Se ele não pular na frente do primeiro carro, passará a noite num túnel abandonado da cidade, onde apenas pessoas da mais baixa classe e totais excluídos sociais estarão. Ao lado de uma chama rala e que não os esquenta muito mais que o papelão ou a roupa suja e rasgada que usam. Jogarão dados e apostarão o último pedado de pão embolorado, isso se o gato malhado não roubar antes.
A vida é tão engraçada. Durante o jogo, esse outro alguém comentará entristecido, invejosamente e raivoso a sorte do outro. “Agora ele deve estar com a esposa grávida e a pequena filha...” “Tenho certeza que aquele canalha está voltando pra casa, num carro do ano, modelo novíssimo!”, e enquanto tenta dormir ignorando o vento gélido e úmido deitado no papelão molhado, pensa “Aquele maldito... Deve estar se aquecendo no corpo da mulher...”... Bem, e quando acordar, se não morrer durante a noite, tossindo como doido ou de frio, rezará pra encontrar migalhas e comer... Migalhas de pombos...
Claro, ele terá alguns trocados, mas perderá nos jogos matinais, garantindo o café de alguém e perdendo o seu.
A vida ainda é engraçada.
O que diabos máscaras têm haver com isso?
Ele não teria tanta inveja e raiva do amigo se parasse no falso “Bem, e você?”... A pequena Katy não seria órfã de pai, dois anos depois. Nem a empresa iria à falência por conta da perda do sócio mais importante, ou a mulher dele ficaria na culpa por isso.
Hilário, não?
Mascaras... Um mal necessário.
Claro, fui dramática.
Mas ainda as odeio.
Uso-as, não por conta própria... Mas se eu não usá-las, o que pode acontecer? Se eu for sincera o tempo todo, o mundo cairá. Serei excluída socialmente. Somos impedidos de sermos nós mesmos. Ser excluído socialmente é quase tão ruim quanto a prisão.
Bom, dane-se.
Não faz diferença, é só uma opinião que encerro sem fim...
Não posso ser sincera, lembra?
Ainda preciso da sociedade, estritamente para garantir a minha vida e manter as pessoas que prezo perto de mim, garantindo assim minha sanidade e economizado gastos hospitalares para a minha família.

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