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Putz... Olha pra QUEM você pergunta... Mas, se for pra dizer quem eu sou eu digo... Reticências. Reflita. Me leia. Reflita...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Máscaras

Eu as detesto.
Todas me enjoam!
Boas, ruins, acolhedoras ou devastadoras... Foda-se. Eu as odeio.

Alegres, tristes, dramáticas, raivosas, sanguinárias, horrendas, sorridentes, felizes, pacíficas... Em geral e sem exceção, mentirosas.

Posso falar delas o tempo todo, mas não posso deixar de citar que as uso. Não é por opção. Usar máscara é uma obrigação. A sociedade impõe isso. Sim, como não? “Como você está? – alguém pergunta num sorriso e educação automáticos” “Bem, e você? – Outro responde com o mesmo sorriso e educação automáticos, isso quando ainda diz o obrigado, como não foi o caso. É bom lembrar que este senhor que está ‘bem’, perdeu a mulher para o amigo enquanto hipotecava a casa por dívidas de jogos e da própria casa, tem cirrose e inicio de câncer pulmonar dado o cigarro, a ex-mulher é estéril e está ficando calvo e impotente, por que o barril de cachaça que ainda chama de barriga e os fios brancos da velhice chegaram mais cedo”.
Amaldiçoada sejam as máscaras, que são o adorno mais comum na sociedade.
Amaldiçoada sejam as pessoas, que aceitam isso em silêncio e acham isso prático, rápido, proporcional à geração “fast food”.
Ora, e se a conversa muda de rumo?
“Como você está? – Alguém pergunta naquele mesmo sorriso e educação com vida própria que surgem assim, instantaneamente.” “Sabe... Eu gostaria de dizer que estou bem, mas não estou. – O outro fala francamente, com ar cansado e abaixando a cabeça humilhado pelos problemas que a vida, somado as suas escolhas ruins, lhe impôs.” “É mesmo? O que foi que houve? – Alguém se interessa rapidamente e estreita os olhos inclinando a cabeça buscando atenção ao problema do colega.” “Bem... É que, como pode ver, estou velho... Fui demitido essa semana. Cheguei mais cedo em casa e peguei minha mulher com meu amigo. Frustrado, fui jogar e beber um pouco, mas perdi tudo. Com isso, não agüentei... Só sei que acordei no hospital. O doutor disse que estou com câncer por culpa do cigarro e cirrose por conta da cachaça... Voltei pra casa à base de aparelhos pra ver minha ex-mulher jogar na minha cara que iam hipotecar a casa. Depois disso foi embora. Após tomar uma lata de cerveja fui me divertir sozinho com um filme pornô... Estou ficando realmente velho... Sabe... Não sei o que fazer... Estou perdido e hoje de manhã mandaram o pedido de mudança...” “Ora, é mesmo? Por que não jantamos juntos e você me fala a respeito, hm? Agora tenho uma reunião importante com os sócios da empresa em que trabalho. Está com cara de que vou ser o novo sócio deles! Oh, não vai dar... Terá que ser no almoço, pode ser? Hoje jantarei com minha esposa... E nossa pequena Katy... Sabe que ela está grávida de novo? Estou feliz e realizado, mas... Boa sorte para você, cara... Estou torcendo por você.”.
Não é engraçado como as coisas são?
Ninguém é sincero. O cara estava feliz. Foda-se que o outro está mal, contanto que a merda de vida dele não seja contagiosa, está tudo bem, ele ainda terá a mulher, a pequena filha e a criança que ainda não nasceu. Terá o tal cargo de sócio e um jantar apetitoso à noite. O amigo dele está mal, ele pode até se incomodar com isso, mas... Mesmo que ele se incomode, a mulher o distrairá quando ele pensar nisso e comentar com ela na cama, e logo em seguida transarão muito e acordarão com sorrisos dispostos cumprimentando-se com um suave beijo sem se lembrar que o outro existe. Claro, isso se apenas lembrar-se de comentar com a mulher do amigo. Caso contrário, pularão para a troca de calor mútua.
E o outro?
Bem, procurará emprego, mas sua aparência que lhe dá mais idade que tem não ajudará. Ao voltar pra casa, derrotado, seus móveis estarão fora e a mulher estará com o outro querendo apenas as coisas mais caras. Se ele não pular na frente do primeiro carro, passará a noite num túnel abandonado da cidade, onde apenas pessoas da mais baixa classe e totais excluídos sociais estarão. Ao lado de uma chama rala e que não os esquenta muito mais que o papelão ou a roupa suja e rasgada que usam. Jogarão dados e apostarão o último pedado de pão embolorado, isso se o gato malhado não roubar antes.
A vida é tão engraçada. Durante o jogo, esse outro alguém comentará entristecido, invejosamente e raivoso a sorte do outro. “Agora ele deve estar com a esposa grávida e a pequena filha...” “Tenho certeza que aquele canalha está voltando pra casa, num carro do ano, modelo novíssimo!”, e enquanto tenta dormir ignorando o vento gélido e úmido deitado no papelão molhado, pensa “Aquele maldito... Deve estar se aquecendo no corpo da mulher...”... Bem, e quando acordar, se não morrer durante a noite, tossindo como doido ou de frio, rezará pra encontrar migalhas e comer... Migalhas de pombos...
Claro, ele terá alguns trocados, mas perderá nos jogos matinais, garantindo o café de alguém e perdendo o seu.
A vida ainda é engraçada.
O que diabos máscaras têm haver com isso?
Ele não teria tanta inveja e raiva do amigo se parasse no falso “Bem, e você?”... A pequena Katy não seria órfã de pai, dois anos depois. Nem a empresa iria à falência por conta da perda do sócio mais importante, ou a mulher dele ficaria na culpa por isso.
Hilário, não?
Mascaras... Um mal necessário.
Claro, fui dramática.
Mas ainda as odeio.
Uso-as, não por conta própria... Mas se eu não usá-las, o que pode acontecer? Se eu for sincera o tempo todo, o mundo cairá. Serei excluída socialmente. Somos impedidos de sermos nós mesmos. Ser excluído socialmente é quase tão ruim quanto a prisão.
Bom, dane-se.
Não faz diferença, é só uma opinião que encerro sem fim...
Não posso ser sincera, lembra?
Ainda preciso da sociedade, estritamente para garantir a minha vida e manter as pessoas que prezo perto de mim, garantindo assim minha sanidade e economizado gastos hospitalares para a minha família.

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